Aquele sobre buscasA vida é feita de muitas buscas. Parece que não importa em que lugar do tempo estejamos, estamos sempre em busca de outro — passado ou futuro. |
Bota mais água no feijãoSei que existe uma premissa não explorada escondida em algum lugar, preparando o bote feito um tigre faminto. Dentro de uma gaveta, atrás de uma porta, emaranhada nos fios de cabelo da Paula. Sei que ela está lá, me observando com os olhos ávidos de um serial killer. Sei que uma hora a fome cobiça ânsia vai ser maior e ela vai pular na minha femural quando eu não estiver olhando e arrancar minha perna, num festim de sangue ralo e quase translúcido. E vou cair de costas sobre uma poça de mim, pra não mais levantar, olhando aterrorizado praqueles olhos injetados que me dirão, com a voz de um lago, ser pouca a minha carne. E parada ali, enrolada em si como naja, ela vai me hipnotizar e sugar meu senso pré-digerido por seu veneno, deixando pra trás uma casca fria feito faca, pingando tinta das pontas dos dedos. E tudo que é, não será mais, espiralando fosco por trás de um espelho feito de pixels eletrizados. Eu serei, num pedaço de sempre e a um só tempo, Dorothy, Gulliver, Alice, Thomas Anderson, um matemático irlandês estudando o calendário afar, o filho de Einstein e meu velho hamster, que tinha medo de andar na roda giratória. Numa golfada de fumaça, farei visível a luz que reflete em cada partícula do meu eu que se dissipa apenas para outra vez se recompor dentro de margens serifadas e secas como um soco no fígado. Então, os dentes, antes intimidadores, estarão emoldurados por lábios incomensuravelmente pequenos, contorcidos num sorriso quase ingênuo de tão sedutor. Transmutada, como um alien ao explodir peito afora de seu hospedeiro, ela cruzará as pernas apertadas dentro de saias curtíssimas e jogará os cabelos feitos de luas novas, como quem convida a um beijo na nuca. Febril, eu a atirarei ao chão e, entre mordidas e arranhões inocentes, faremos um filho. E ela morrerá, comigo junto — ou pelo menos a parte de mim por trás do espelho. Órfão, nosso filho vai se encolher e amuar no canto escuro de um labirinto caixa gaveta pasta página. E ficar. Sei que ela me atocaia. Sei que vai me atacar. Mas por que não nesse agora? Por que me privar da dor e esconder de mim nosso filho? Posso ouvir sua respiração, sentir seu hálito de carne podre, cada vez mais perto. Mas o ataque, esse nunca chega. |
Bienal do Livro — Dia III
Demorou, mas meu terceiro dia de Bienal finalmente aconteceu. Foi um dia cheio de reveses, cheio mesmo, mas vou me ater ao período que passei lá dentro, que me foi bastante produtivo. |
Bienal do Livro — Dia II
Passou mais tempo que eu planejava. Segundo meu cronograma, era pra eu ter ido esse sábado na Bienal, conferir alguns eventos, mas por motivos diversos (leia-se: preguiça), eu fui forçado a pular um dia. |
Bienal do Livro — Dia I
Sempre que uma Bienal acaba, eu começo a esperar pela próxima. Muita gente não entende, consideram os preços praticamente iguais, o que não é verdade se você souber onde procurar e exatamente o que quer – E, claro, saber pechinchar ajuda um pouco. Mas isso nem é o principal. Eu gosto mesmo da atmosfera, dos eventos, e de saber que todos estamos ali com, no fundo, a mesma intenção. |
ReleituraAcho sempre interessante como um mesmo texto pode ter níveis praticamente opostos dependendo da finalidade da leitura. Eu gosto — e não faço tanto quanto gosto — de ler um texto (conto, livro, poema) no mínimo dos mínimos duas vezes. A primeira leitura é sempre de reconhecimento, você nunca pesca tudo que nada entre as letras. É uma leitura mecânica na qual as palavras são, quase sempre, palavras e, embora haja, sim, um desvelamento, nada atravessa o leito do rio. Largar um texto na primeira leitura é abrir uma caixa de lego, olhar as peças e guardar outra vez. Pra construir, de verdade, o sentido, você precisa encaixar as peças. Olhar as palavras e enxergar os conceitos. Por isso todo texto é (por exigência) detetivesco. Pelo menos todo bom texto. Se o sentido puder ser depreendido de primeira, tem algo errado, algo faltando. Infelizmente, aqui estão enquadrados 90% dos best-sellers Me interessa (assim, oblíquo, mesmo) a outra margem. E, como todo exercício físico, nadar até ela exige esforço e é compensado pela sensação de euforia ao final. Parar aqui já seria o suficiente. Só que o suficiente sempre é pouco. Eu nunca — repito: nunca! — montei um conjunto de lego como as instruções mandavam e deixei pra lá. Acho que ninguém fez isso. Era minha parte favorita reorganizar as peças, recriar aquilo de uma forma mais divertida ou mais instável. Esse, sim, é o primeiro trabalho realmente ativo na relação com o texto. É o trabalho de autoria inerente ao leitor, quando não basta um texto ser bom, mas há a exigência, também, de um bom leitor. Uma das coisas mais comuns é leitores medíocres transformando textos maravilhosos em merda. Conheço pessoas que conseguiram a proeza de odiar Fausto. Esse trabalho analítico exige minúcia e paciência, com autor e leitor. Não se chega à terceira margem sem, pelo menos, uma canoa e um remo. Mas valeria a pena, se fosse, de fato, penoso. Não é. Como no sexo, a hora de mais prazer segue-se à de maior esforço. Agora, combinar esses processos de leitura com um fim, seja ele qual for, produz os mais interessantes resultados. Recentemente reli dois de meus autores favoritos com o objetivo de falar especificamente sobre o que li, não em troca de uma nota ou comentário, mas apenas como chance de divulgar minha opinião sobre esses autores e, cara, que prazer é passar por isso. Os textos estavam novos, frescos, como se eu nunca os houvesse lido, embora soubesse muitos de cor. É uma magia estranha, essa. Uma magia ancestral e inexplicável. Enquanto você devora o texto, é ele que te deglute e cospe de volta, com novos olhos. Queria poder fazer uma analogia bonita aqui, mas penso que já gastei minha cota prum post de blog, então acho melhor ficar por aqui antes que eu xingue meu próprio pedantismo. |

