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Rodrigo Cali. Rio de Janeiro, Brasil.
Letras, UFRJ. Design, MEC.
Cinéfilo, bibliófilo. Extremamente inconveniente na maioria das vezes.


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Há algum tempo eu ganhei de uma namorada (que nem foi das melhores) uma edição bilíngue de um livro de poesia do Bukowski. Não era das melhores. Bem, a edição até era, com alta gramatura e verniz na capa e na quarta. Tinha uma foto de uma garrafa, claro.

O que não era das melhores, mesmo, era a tradução.

Isso irrita um pouco, sabe?

O público alvo de edições bilíngues costuma ser o que entende a língua original (ou a está estudando), mas ainda assim está interessado em ter uma boa tradução (ou precisa pra entender o que não souber).

Colocar uma péssima — porque era péssima, quando eu disse que não era das melhores eu estava sendo bonzinho — tradução bem ao lado do texto original exige uma caradepaugem sem tamanhos.

Entenda, eu não estou reclamando de uma tradução que usa um sinônimo que eu não usaria, estou reclamando de um nome no original ser “Hunk” e na tradução virar magicamente “Henry”; estou reclamando de “4:30” se transformar sem qualquer motivo aparente em “quatro e meia”; de “gotten away with” materializar-se num inexplicável “joguei fora”.

Ver um “people” traduzido para “pessoa” é até passável por extensão de sentido, mas quando vira “uma pessoa” o copo transborda.

A tradução em questão, com outras inadequações até mais gritantes que essas, é de um professor doutor em Teoria Literária pela UFF. O doutor também é médico, cabe dizer, só pra fazer piada. E poeta — aqui a piada é incidental.

Na introdução, uma parente nos conta um pouco da vida do tradutor (nada sobre o autor) e sua luta de décadas (!) para traduzir de forma magistral a obra de Dante. Até agora me pergunto qual é a relevância disso, visto que forma, conteúdo e língua original são completamente diferentes. Talvez seja o pensamento de que traduzir alguém de tão alta hierarquia canônica abalize a pessoa a traduzir qualquer outro autor, em qualquer outra língua. E definitivamente não é o caso.

Acontecem erros básicos, tanto de interpretação, quanto de vocabulário. Eu consigo ver, por exemplo, o tradutor pegando o dicionário, abrindo no verbo “tick” e esquecendo de olhar o substantivo logo abaixo. Isso faz “carrapato” virar “assinalamento” e “indicação”.

Pra coroar tudo, o lugar no final do livro tradicionalmente devotado a uma biografia do autor é ocupado por uma do tradutor (mesmo com a introdução já tendo feito esse trabalho) coalhada com tanta bibliografia que me fez lembrar Pierre Menard.

É uma edição de um egocentrismo tão grande que eu não sei como pode ter passado pelas mesas editoriais da Bertrand Brasil, tradicionalmente bastante seletivas.

Acontece — talvez com uma frequência maior que deveria. Mas se eu fosse dizer nomes, a canção era pequena: Jorge Wanderlay.