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Algumas vezes tanta coisa acontece que parece que a sua vida inteira foi, até então, o marasmo antes da tempestade. E, quando a tempestade finalmente irrompe, você dá graças a deus por não ter trazido um guarda-chuva, porque você quer mais é se molhar e aproveitar cada gota como se fosse um beijo. Então, o relógio, súbito, não faz mais tanta diferença, encarando tudo de um canto ermo como um espectador improvável que passava e resolveu parar pra ver o que acontece. Você, lá no meio da tempestade, com a roupa grudada no corpo, envolve com seus braços uma cintura alheia, num abraço que imita um colisor de hádrons — os livros que você leu já não importam, os filmes que você viu já não fazem sentido, as músicas que você um dia irá compor já são desnecessárias: tudo o que existe é aquela entidade indefinível que não é um nem dois, completamente fora do tempo e do espaço. Nesse momento, precisamente nesse instante — se é que se pode chamar assim — você percebe que tudo faz sentido. E, meu deus, como era simples!
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