Entrevista com Bryan Lee O’MalleyPra quem não sabe, Bryan Lee O’Malley é o criador da série de Graphic Novels Scott Pilgrim que, na minha opinião, é um dos mais vivos resumos da geração da qual eu faço parte.
O autor canadense, nascido em 1979, atingiu o sucesso ainda jovem e quase por acaso, com um traço simples de forte influência japonesa, roteiros bem estruturados e gags visuais de caráter cinematográfico. Além disso, sua linha de referências é longa e curva, mergulhando fundo na cultura pop e respingando música, filmes e videogames por todo canto. Hoje ele mora com a esposa Hope Larson, também ilustradora, em Los Angeles. E é com permissão vinda diretamente de O’Malley que eu posto aqui a tradução exclusiva da excelente entrevista sobre seu processo criativo publicada hoje pelo autor em seu perfil na deviantART. Basta clicar em “Leia o post completo” 1. Você pode dizer como é o seu típico mês de trabalho? A principal dificuldade em trabalhar com histórias em quadrinhos, e eu constantemente luto com isso, é a divisão entre escrever e desenhar. Como eu escrevo e desenho todo o meu material, há uma flagrante divisão de trabalho; por exemplo: eu passo metade do ano desenhando, e metade escrevendo. Você acaba se sentindo meio esquizofrênico: é como ter um trabalho uma hora e, de repente, outro completamente diferente. Você usa diferentes habilidades em cada uma das fases, mas, pelo menos para mim, elas devem ser necessariamente isoladas. De toda forma, o meu mês de escrita típico é assim: Eu normalmente passo algumas horas por dia escrevendo e/ou pensando em material e, então, gasto as demais horas lendo, assistindo a filmes, jogando videogames e, em suma, procurando inspiração. Habitualmente, escrevo por certo período e aí esbarro em uma dificuldade e paro por um tempo. Algumas vezes tenho que ficar parado por uma semana ou mais e, então, tenho uma epifânia de repente e volto a escrever, durante dois dias direto. Eventualmente esse processo leva a roteiros finalizados. As fases de desenhar são mais ou menos assim: de segunda a sexta eu começo a desenhar assim que acordo e paro depois de terminar duas páginas, ou outra quantidade que eu tiver estabelecido. Os finais de semana eu tento tirar de folga, mas geralmente acabo trabalhando, ou no sábado, ou no domingo, ou em ambos, seja porque estou atrasado com o prazo ou porque simplesmente não sinto vontade de não trabalhar. Eu gosto de fazer os rascunhos logo que acordo, quando meu cérebro está trabalhando melhor, então faço os desenhos à lápis antes do almoço e artefinalizo durante a tarde. Gosto de escutar audiobooks ou programas de rádio enquanto faço os desenhos à lápis, porque eles distraem a parte do meu cérebro que fica constantemente gritando “ISSO TÁ HORRÍVEL! VOCÊ TÁ ESTRAGANDO TUDO!”. Durante o processo de artefinalização, gosto de ouvir audiobooks ou música barulhenta e animada. Já na fase de rascunhos, prefiro música calminha. No meu próximo trabalho eu quero passar alguns meses rascunhando tudo de uma vez só. Vamos ver no que dá. 2. Um passarinho me contou que você é incrivelmente rápido quando a deadline se aproxima. Você tem alguma dica para aumentar o número de páginas feitas por dia? Não é verdade. Eu era mais rápido quando era mais jovem e idiota. Agora aprendi que “devagar e sempre” é uma excelente analogia pra quadrinhos. Se sua idéia for fazer duas páginas por dia, você vai acabar fazendo mais coisa que se tentar fazer 20 páginas por semana. E se você tá querendo fazer 20 páginas por semana, você vai se dar mal e se sentir péssimo. Ainda estou me acostumando com esse conceito. 3. Seus personagens são marcados por um nível impressionante de autoconhecimento. Você pode dar alguma dica em como criar personagens? Não sei se posso ajudar com esse assunto, é uma coisa é acontece naturalmente comigo. Meu principal interesse como escritor/criador é o modo como as pessoas se interrelacionam. Todo mundo é diferente, e todas essas pessoas diferentes interagem com todas as outras pessoas de um jeito particular, de forma que qualquer relação entre dois personagens específicos é uma coisa separada. Acho que isso é uma dica. 4. O que você considera mais difícil na criação de quadrinhos? A parte mais complicada é, provavelmente, a consistência do trabalho e toda a prática e esforço necessários. Você pode acabar sentindo como se estivesse começando do zero todos os dias. Outra parte difícil para mim, como um criador em amadurecimento, é, como disse antes, a divisão entre escrever e desenhar. Eu estou constantemente à procura de modos de integrar as duas coisas de modo satisfatório, mas tem sido difícil porque eu gosto de uma estrutura sólida para o enredo, mas também da espontaneidade de piadas ou imagens que surgem durante o processo de desenhar. Eu quero as duas coisas, e isso torna necessária a divisão de trabalhos. 5. Você pode descrever como começou nos quadrinhos? Eu acho que entrei meio pela porta dos fundos. No final da minha adolescência, eu fazia meus próprios quadrinhos amadores na internet, quando isso ainda era algo novo (final dos anos 90). Então eu fui morar com uns amigos alguns anos mais velhos, que estavam trabalhando numa revista pra Image. Eu ajudei com letras e alguns aspectos de design e, com isso, acabei fazendo alguns contatos e comecei a fazer uns bicos com letras e finalização pra Udon e pra Oni Press. Ao mesmo tempo, eu estava cultivando as idéias da minha própria minissérie. Quando finalmente comecei a trabalhar em uma, Graphic Novels estavam começando a tomar o lugar de minisséries, então eu fiz “Lost at Sea” como uma Graphic Novel. Depois disso, meu editor sugeriu que eu fizesse uma série de livros, que foi o que deu origem a Scott Pilgrim. 6. Qual seu material favorito? Eu tenho uma relação de amor e ódio com pincéis e nanquim. É um conjunto de ferramentas bastante temperamental e fortemente baseado em “bons” pincéis e tintas (em outras palavras, caros), e mesmo os mais caros são bastante volúveis.Além disso, realmente demora anos pra que se aprenda a usá-los corretamente e adquirir estilo próprio. Mas definitivamente não dá pra ter o mesmo resultado com outras coisas, eu acho. Eu provavelmente vou acabar sempre no pincel e na tinta. 7. Você usa muito o computador? Sim e não. Todo meu trabalho passa pelo computador, mas eu o utilizo basicamente pra poupar tempo, não tanto pra produzir. Eu faço uma limpa nos originais, preenchimentos de preto e letras no computador. Às vezes eu prefiro fazer linhas longas e curvas sinuosas no Photoshop porque sou péssimo pra desenhá-las à mão. Também uso pra quase todo meu trabalho com cores e tons de cinza. Não sou muito fã de finalizar com uma mesa digitalizadora, mas gosto de usá-la para colorir originais e conseguir efeitos malucos, diferentes do que eu faria no papel. |
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